A cidade pincelada o ano todo

Do alto da Rua Halfeld, é possível avistar um casarão na Avenida Sete. Na pintura de Heitor de Alencar, de 1939, as distâncias tornaram-se menores, a a entrada da Academia de Comércio está a um passo do Edifício Clube Juiz de Fora. A cidade, vista pela pintura, foge da realidade, mas sem dela abrir mão integralmente. À medida em que escapa da urbe em sua movimentação incansável, o artista retrata o belo, que se esconde no que o olhar apressado não consegue dar conta. A obra de perspectiva singular é uma das integrantes do calendário que a Tribuna lança neste domingo, encartado nesta edição e destinado a todos os leitores. Baseado no projeto "Juiz de Fora - Verbo e cor", do pintor, professor e pró-reitor de Cultura Gerson Guedes, o calendário conta a história da cidade retratada por seus próprios artistas e tem o apoio da UFJF e da Prefeitura.

"Partimos da vinda dos portugueses para o Brasil, passando pelo ciclo do ouro e pelo Caminho Novo, chegando à Juiz de Fora do início dos anos 1900″, apresenta Gerson, curador das duas exposições já exibidas no Museu de Arte Murilo Mendes - a primeira das origens ao século XX, e a segunda iniciando no século XX até os dias atuais. "Para o jornal, que registra o passado e pensa o presente de nossa cidade, é muito importante olhar para trás e reverenciar essa trajetória, construída com tanta sensibilidade por nossos artistas", comenta uma das diretoras da Tribuna, Suzana Neves. "A cidade, que acompanhamos dia a dia, agora está reunida em uma leitura artística a ser acompanhada o ano inteiro", completa a também diretora geral Márcia Neves.

Telas de história
"Busquei referências em Albino Esteves, Paulino de Oliveira, até chegar a Iacyr Anderson de Freitas, Fernando Fiorese, Edmilson de Almeida Pereira, Claudia Viscardi, Maraliz Christo e Douglas Fasolato. Fui descobrindo a minha terra", diz Gerson, justificando a narrativa que se inicia com a chegada das caravelas portuguesas ao Brasil, representada pelo trabalho de Jorge Arbach. Grandiosa, reproduzida em cores quentes e com um universo sombrio, uma das obras da série "Terra de Vera Cruz", de Eliardo França, joga luzes sobre a colonização, cujo ápice econômico está no ciclo do ouro, forte o bastante nas Minas Gerais. Com sua linguagem abstrata e lançando mão de tinta dourada simbolizando o ouro, Petrillo recompõe a atmosfera do "Eldorado" nas terras tupiniquins. Justamente para escoar a fortuna encontrada nas bandas de cá, foi aberto o Caminho Novo, retratado por Silvio Aragão em "Grama".

Enquanto Carlos Bracher faz sua leitura do Rio Paraibuna, Aragão registra a Fazenda Juiz de Fora, de posse de Luiz Fortes Bustamante e Sá, o tal juiz que vinha de fora para atender o vilarejo construído às margens do rio. Rogério de Deus recria, com uma paleta nublada, como já foram os dias da cidade, uma Avenida Rio Branco extensa. Frederico Bracher mostra a exuberância do maior museu local, o Mariano Procópio. A Câmara, de Gerson, a Halfeld, de Heitor, a estação, de Nívea Bracher, e a Pantaleone Arcuri, pelo olhar de Ricardo Cristofaro, completam o percurso histórico, destacando seus muitos pontos de afeto. "A pintura é a assinatura do espírito humano, e nenhuma máquina vai poder fazer isso. Todo mundo tem, e feliz daquele que descobre a sua e não a vende por nada, só empresta por um valor simbólico", brinca, refletindo o pró-reitor de Cultura.

Segundo Gerson, é significativo que a tela de Fani Bracher, retratando a antiga fábrica Ferreira Guimarães (dos tempos de uma Juiz de Fora plenamente industrial), abra o calendário, assim como a obra "Cometa", de Renato Stehling, sirva ao encerramento do mesmo, simbolizando poeticamente o futuro. "O Stehling é um artista que a cidade ainda não descobriu. Ele ainda merece mais atenção", pontua.

Entre gerações
Nas sublinhas de cada página, de cada mês do ano, esconde-se um encontro de gerações. Reconhecida por seus movimentos culturais e nomes que ultrapassaram as montanhas circundantes, Juiz de Fora também surge vigorosa nas mãos de seus artistas. "Antônio Parreiras foi o berço de tudo, com Carlos Gonçalves, Heitor de Alencar, Silvio Aragão, César Turatti e muitos outros", analisa Gerson Guedes. "Quando a universidade chegou, mudou o perfil das artes visuais na cidade", completa. A Associação de Belas Artes Antônio Parreiras, escola para muitos artistas, está expressa nas pinceladas de alguns de seus fundadores, mas também está no trabalho de Petrillo, cujo início se deu no figurativo aprendido nas salas da associação e transformou-se após o ingresso no curso de artes e design da UFJF, representado pelas fotografias de Cristofaro, professor e artista.

Há, ainda, lugar para aqueles que não se alinharam a tal trajetória, como o próprio idealizador do projeto "Juiz de Fora - Verbo e cor". "Tornei-me operário aos 12 anos. Trabalhava 50 horas por semana dentro de uma fábrica. Acompanhava a pintura à distância. Não tive como ir a protestos ou participar de movimentos. Quando deixei de ser operário, fui para o exército e, ao sair, fui dar 55 aulas por semana. Nunca pude estudar na Antônio Parreiras e nunca tive aula de pintura. Sempre quis participar de tudo, e agora, com esse projeto, consigo", emociona-se Gerson, com seu forte sotaque mineiro e sua defesa na ponta da língua: "As pessoas falam da influência do Rio de Janeiro, mas no fundo somos mineiríssimos. Se sair num raio de 5km da cidade, já estamos no mato".

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