Fragmentos de contemporaneidade

Criadora, subversiva e nova, são os adjetivos que o jornalista e crítico Luciano Trigo utiliza para definir a arte contemporânea em seu livro A grande feira, no qual analisa a produção mundial ao longo dos últimos anos. Para Trigo, a arte contemporânea "é a arte que, ao invés de se conformar em repetir o passado em reciclagens aleatórias e inofensivas, desafia ao mesmo tempo o passado e o presente". Considerada uma das mais importantes galerias cariocas, a Cosmocopa, localizada em Copacabana, se define através de uma fórmula: "misture Hélio Oiticica com Copacabana, junte um casal de artistas com um publicitário, ponha uma pitada de amor à arte e muito trabalho". Referência na produção atual, a galeria comandada pelos artistas Rosana Ricalde e Felipe Barbosa, à frente da direção artística, apresenta uma porção de seu elenco na mostra Cosmos Contemporâneos, que a Hiato - Ambiente de Arte inaugura no próximo dia 21, sexta-feira, às 20h.


Reconhecidos pelo mercado e reverenciados pela crítica especializada, Felipe Barbosa, Geraldo Marcolini, Hugo Houayek, Leila Danziger, Lin Lima, Mônica Rubinho, Rodrigo Oliveira e Rosana Ricalde são os principais artistas da Cosmocopa, e permitem indicar, através de suas criações, os novos espaços ocupados pela arte. "A Cosmocopa equilibra um frescor criativo com uma poética muito particular. Reunir esse elenco, agora, é revisitar as questões mais urgentes de nossa arte", analisa Petrillo, coordenador da Hiato, que comemora seus 10 anos, completados em agosto.


Entre a memória e o porvir
Como a descascar um jornal antigo, Leila Danziger apresenta trabalhos em que deixa restar apenas as imagens do folhetim, para em seguida gravar uma frase de ordem. Num discurso extremamente emocional, a artista se atenta para os esquecimentos cotidianos, debatendo a pertinência da memória na escrita do presente. "Procuro algo semelhante a uma escritura da melancolia, partindo da ideia de que ela é produtora de signos", explica Leila. "Sem a ingenuidade de quem acredita ser possível resgatá-los (os fragmentos do passado) em sua totalidade, Leila Danziger mostra a importância da leitura e da tradução poética dos objetos e dos acontecimentos do mundo", aponta o pesquisador Luiz Claudio da Costa.
Moldando lápis, lapidando a escrita, o jovem Lin Lima desvenda em seus trabalhos um universo de delicadezas e precisões. As paisagens que recria em suas esculturas-quadros, são ricas em cores e formas. "Faço parte da mesma evolução que muda o espaço ao meu redor. Nele procuro ser agente de forma constante", revela o artista. De preocupações semelhantes são criadas as obras de Felipe Barbosa. Múltiplo em suportes, Barbosa foca na mercantilização e no capitalismo para criar seus lúdicos trabalhos. "Se na tragédia grega o que garantiu transitividade e permanência foram os traços universais das paixões humanas mais abordadas, na obra de Felipe Barbosa é a aptidão universal do homem em se adaptar às condições adversas que as garantem", analisa o crítico Luciano Vinhosa.


Segundo Petrillo, as obras que compõem Cosmos Contemporâneos demonstram as muitas possibilidades no fazer artístico brasileiro de hoje. "São trabalhos coerentes e minuciosos. Há uma preocupação muito grande com o suporte e com o diálogo com o cotidiano, sem esgotá-lo, deixando fendas para interpretações e poesias", finaliza.